
Uma pessoa não vale pelo que tem.
Vale pelo que é.
Há pessoas que, porque já têm, pensam que já são.
Não são. Nem se sabe se virão a ser.
Toca o telemóvel.
–É para vires.
Salta da cama. Enfia umas calças desbotadas, calça as botas. Dá um beijo na mulher. Veste um casaco vermelho. Daí a pouco, com o coração aos saltos, enquanto pensava «Coragem não é a ausência de medo. Ter coragem é ser capaz de enfrentar o medo», entrava a correr num carro vermelho. Desta vez, ia no carro de desencarceramento. Ele é.
Quando ouviu o pai, fechar a porta devagarinho, acordou. Acordava sempre. E estendeu a mão para debaixo da cama. A lanterna oferecida nos 5 anos. Foi descalço ao cabide buscar o seu casaco vermelho, igual ao do pai. Vestiu-o e voltou a deitar-se. Adormeceu assim.
Será.
Na televisão passava uma legenda em rodapé com qualquer coisa sobre «poder de compra» que lhe chamou a atenção, e em cima dela estava o último recibo do ordenado.
Não perdeu mais de 1 minuto a pensar quanto tempo demoraria a chegar aos 400 euros por mês. Não teve tempo de pôr batom, apenas compôs o cabelo. Vestiu a bata branca, que abotoou com dificuldade. Sem tempo para pensar em dietas. Com todo o tempo para se deslocar numa carrinha branca com a inscrição «Apoio Domiciliário de Idosos». Saiu de casa eram 7h00. Tinha de levar um sorriso, higiene, alimentos, uma palavra, a 27 pessoas idosas, maioritáriamente sós, naquele dia.
Não sabe, mas já É.
Entrou em casa pelas traseiras, pelo lado do quintal. Tirou a chave do esconderijo que a mãe lhe ensinou. Entrou. Sabia que primeiro estão sempre os trabalhos de casa. Mas era cedo e não lhe levariam a mal que brincasse um pouco, enquanto esperava sozinha pelo regresso da mãe. Abriu uma caixa que tinha no quarto. Tirou lá de dentro uma boneca.
Vestiu-lhe uma bata branca. E depois, olhando-a bem, colocou-lhe uma cestinha na mão.
Vai ser.
Devemos admirar as pessoas pelo que são e nunca pelo que têm.
Pessoas anónimas, que têm pouco. Nada levam para casa. Nada possuem.
São riquíssimas !
Pessoas comuns, com pouco de seu, mas com um coração do seu tamanho.
São aquelas que mais merecem o nosso respeito, e o que deveremos procurar ser.
Pessoas, perante as quais me curvo. Passam a vida inteira a fazer coisas pelos outros. Nem sequer têm tempo para ambicionar.
Essas pessoas simples, cuja atenção ao seu quotidiano é capaz de fazer correr algumas lágrimas dos nossos olhos, vivem com um grande à vontade na vida.
É que eles sabem, que tem sempre um lugar à sua espera.
Pode não ser na Terra.












